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Ainda a fotinho

Na coluna anterior, mostrei como se faz os diminutivos de algumas palavras para esclarecer a dúvida que muitas pessoas recentemente têm tido: fotinho ou fotinha? Como dito, a regra da língua portuguesa na norma culta mostra que a formação correta do diminutivo é no masculino – fotinho. No entanto, não podemos desconsiderar que a fotinha está na fala da maioria da população. Os falantes fizeram o diminutivo e consagraram a forma “fotinha”, mas é importante não misturar o que acontece na língua falada do dia-a-dia da população com as regras da norma culta. “Fotinha” não é errado no contexto informal da fala, mas é, sim, errado na língua padrão – que é a variante da língua portuguesa prestigiada pela comunidade, usada oficialmente pelo governo, pela mídia, pelas escolas e empresas etc. Não são duas línguas diferentes, são duas variantes da mesma língua. O importante é saber em que contexto usar cada uma delas; isso vale para fotinha e fotinho.

Fotinho

Fotinho ou fotinha? A fotinho. A dúvida surge porque foto é uma palavra feminina terminada em “o” (de fotografia virou foto). Uma das poucas neste caso. Dos sufixos que podem ser usados para a formação do diminutivo, para o caso de “foto”, -inho é unânime. Para fazer o diminutivo, acrescentamos o sufixo e, no lugar da vogal no fim, entra -inho nas palavras terminadas em “o” e -inha nas terminadas em “a”. Assim, temos livro e livrinho, copo e copinho, porta e portinha, casa e casinha. O diminutivo é feito a partir da vogal no fim da palavra. Mas nem todas as palavras terminam em “a” ou “o”. Como fazer o diminutivo quando a palavra termina com a vogal “e”, por exemplo? Nesse caso, o gênero é levado em conta. Veja: o chefe, o chefinho; a chefe, a chefinha; dente, dentinho; pente, pentinho. Foto, terminhada em “o”, mesmo sendo feminina, recebe o sufixo -inho e vira a fotinho. O mesmo vale para a moto, redução de motocicleta: a motinho.

Bastantes

Bastantes pessoas vão achar que esta frase está errada. Isso é o bastante para que “bastantes” seja o tema da coluna de hoje. A palavra “bastante” pode ser usada em quatro situações: 1. Advérbio Exemplo: trabalhei bastante. Esse é o emprego mais comum, como advérbio, com o sentido de suficientemente, muito. Assim, fica sempre igual, sem plural. 2. Pronome indefinido Exemplos: bastante comida e bastantes dias. Nesses casos, “bastante” significa muito, numeroso, suficiente. Como pronome, sua concordância é feita com o substantivo a que ele se refere na flexão de número (singular/plural). 3. Substantivo Exemplo: não é o bastante. O artigo masculino mostra que “bastante” é substantivo. Varia em singular e plural. 4. Adjetivo Exemplo: ter dinheiro bastante. Significa o que satisfaz e até sobra, mas não é muito usual. Concorda com o substantivo em número.

Ironia

Um colega de trabalho que foi contrariado por outro mais velho chama-o respeitosamente de ancião. Quem acredita que realmente “ancião” foi usado com o sentido respeitoso? Em um curso, a jornalista Mariana Duccini resumiu perfeitamente o conceito de ironia: o enunciado diz, mas a enunciação nega. O enunciado é a manifestação por palavras ou qualquer texto, verbal ou escrito. A enunciação é a forma de manifestar os pensamentos por palavras, é produzir um enunciado. As palavras dizem, mas o contexto em que elas são ditas mostra exatamente o contrário do sentido delas. Foi o caso do “ancião”. A ironia é um artifício inteligente de contrastes, pois deixa aparente a distância intencional entre o que foi dito e o que foi realmente pensado. Exige perícia de quem de quem lê ou escuta para identificar e ter certeza de que um enunciado é irônico. Ancião é uma pessoa de idade avançada e, por isso, pode ser considerada respeitável ou antiquada. Depende da intenção e do contexto.

Porcentagem

O leitor puxou a orelha do BOM DIA com razão. O erro foi em um título publicado dia 16/3: “Em 20 anos, 60% da água do mundo serão impróprias”. Além da notícia um tanto quanto assustadora, o erro de concordância na porcentagem também chama a atenção. Em porcentagem, o verbo concorda com o número (40% são, 1% é). Se o número for acompanhado por um substantivo que o especifique (40% dos juros, 1% das taxas), a concordância é feita com esse substantivo em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural). Veja exemplos das combinações possíveis: - 1% é gasto; - 1% da água é limpa, 1% do gasto é justificado, 1% das luzes são azuis, 1% dos erros não são vistos; - 60% são gastos; - 60% da água será imprópria, 60% do dia é de sol, 60% das horas são marcadas, 60% dos livros estão lá. Adequando a concordância do título que foi publicado com erro, temos: “Em 20 anos, 60% da água do mundo será imprópria”.

A todos ou à todos?

A primeira forma é a correta, sem crase. Relembrando, a crase marca a fusão do artigo “a(s)” com a preposição “a”. A palavra “todos” é um pronome indefinido plural e significa todo mundo, todas as pessoas. Como os pronomes não são acompanhados de artigos, aquele “a” que tem antes de “todos” é somente preposição, portanto, sem crase.

Ensimesmado ou sismemado?

A primeira forma é a correta. O adjetivo ensimesmado significa concentrado, recolhido, voltado para dentro de si mesmo. Vem do verbo pronominal ensimesmar-se. É fácil de lembrar porque se assemelha a “em si mesmo”, que já dá a idéia de recolhimento, concentração. Uma curiosidade: ensimesmar-se entrou no português há mais de um século vindo do espanhol “ensimismar(se)”.